LABIRINTO DE INCERTEZAS....
por Lilóka... Crônicas pessoais...
Desconfio que a idade nos deixa mais nostálgicos.
Sei que muita gente concorda comigo.
Uma coisa é certa, à medida que a idade avança, somos assombrados pelas nossas próprias memórias.
Parece que o cérebro sente que caminhamos para o fim.
É só a gente ficar um pouco quieto, tentar dormir, e lá vêm todas aquelas lembranças de ontem, mas de um ontem que aconteceu há muitos anos.
O problema é que esses “ontem” não vêm numa ordem cronológica, seqüencial, lógica. Vêm ora numa enxurrada de imagens em ritmo frenético e confuso, ora num desfile angustiante em câmera lenta, arrastado, modorrento, uma imagem se ligando na outra, muitas vezes sem conexão com a realidade que pensávamos ter vivido.
Esse é o maior problema: mais das vezes não sabemos nem se o que estamos relembrando realmente aconteceu.
Acho que com o tempo, coisas que vivemos se misturam com coisas que sempre quisemos viver.
Quem é que nunca imaginou um final diferente para alguma passagem da vida que não terminou como queria? E depois de tanto imaginarmos esse final feliz, será que nossa mente não acaba se acostumando, e quando recordamos, não somos mais capazes de lembrar o que realmente houve, mas apenas de reviver, mais uma vez, o que queríamos ter vivido? O final que inventamos para a história e não aquele que o destino nos reservou?
Devemos chamar isso de sonho, pesadelo ou lembrança?
Mas essa não é a pior parte. O que mais atormenta é que, depois de certo tempo, começamos a relembrar histórias sem final, situações desconexas, papéis ao vento. Você já ficou no meio de uma ventania olhando a trajetória hesitante de um papel flutuando ao vento? É como estar num labirinto, onde todos os caminhos, quando olhados isoladamente, parecem ter um traçado bem definido, mas de repente, quando olhamos o conjunto e achamos que estamos perto, acabamos sempre de cara para o nada, olhando a parede dos nossos próprios pensamentos, até que eles se transformem num fim em si mesmos, num círculo infinito, numa barreira instransponível, num arremedo de nós mesmos.
O que mais atravessa a minha madrugada insone são os fragmentos da minha adolescência juvenil. São eles que me usurpam o sono e me tiram o sossego. E pra quê? Por quê? Se não me lembro com clareza de períodos ou episódios que julgava importantes — tanto é que lá estou eu, madrugada adentro, garimpando pensamentos na memória — então porque eles fazem questão de ali permanecer, de me assombrar, de me relembrar que o tempo foi passando, os valores foram mudando, meu corpo foi inchando, depois derretendo, ficando cada vez menos parecido com aquele de que me lembro, para logo em seguida voltarem as imagens, como flashes explodindo no meu cérebro, como se fosse possível assistir a uma tempestade de raios em câmera lenta.
Por que razão essas histórias não se completam?
Não as vivi ou não as quero lembrar?
É o desgaste inevitável da máquina, ou defesa natural que nos mantém sãos?
É curioso. Lembro-me de pessoas que conheci bem sem lembrar-lhes o sobrenome, por outro lado, lembro do nome completo de pessoas com as quais tive muito pouco contato. Colegas de classe, daqueles que ficavam lá na frente, na primeira fileira, prestando atenção a tudo, nos lembrando que nós, lá do fundo, nunca iríamos sair do fundo de alguma coisa, talvez da memória de alguém.Será por isso que me lembro dos nomes? Mas que cérebro é este que me faz esquecer o sobrenome das primeiras paixões?
Será que se eu soubesse que poderiam ser tantas, teria me empenhado tanto em pensá-las eternas?
Lembro de detalhes insignificantes, da roupa que ele usava no primeiro beijo úmido e nervoso, mas não lembro do nome de família do meu primeiro amor. Aliás, nem lembro da família, se é ela existia.
E o amor? Eu esqueci ou também era falso?
A cada dia que passa sinto que fico mais nostálgica, sinto saudade nem sei de quê. Acho que sinto saudade de mim, mas de um eu que não reconheço, de um eu que não vejo há muito tempo no espelho, de um eu que só acredito ter existido por ouvir alguns relatos e guardar fotos antigas.
Não sei se isso acontece com todo mundo, mas acho que estou ficando cansada. Ao mesmo tempo, sinto-me cheia de vida! Estranha sensação. Quero acreditar na vida como uma tábua de salvação, mas, paradoxalmente, estou mais pragmática e cética!
Lembro-me quando tinha muitas dúvidas, e outras tantas certezas, mas e agora?
Por que razão as certezas me abandonaram e as dúvidas se multiplicam a cada minuto?
Qual é nossa missão aqui? Nascemos para quê? Será que viver é lutar por anos a fio para pagar as contas no fim do mês? É só isso?
No mais, é tirar algum prazer daqui, outro dali? Não há mais nada? Nem a memória, a lembrança do que fomos, pode nos ajudar a dar um sentido a tudo isso?
Então para que ela serve? Para nos lembrarmos do dia de vencimento dos compromissos? Para isso temos secretárias, agendas eletrônicas e toda uma parafernália que não nos ajuda muito quando precisamos nos lembrar de quem somos, do que fomos, de onde viemos e para onde temos que ir.
Dizem que a única certeza é a morte, mas eu acho que nem isso é certo, pois quem foi não voltou para confirmar. Nesse caso, por absoluta conveniência e covardia, só acredito vendo.
Por enquanto, a única certeza, se é que podemos chamar isso de certeza, é que vamos ficando velhos, chatos, melancólicos e cada vez com mais saudades de nós mesmos. Ao deixarmos as avenidas ensolaradas e amplas da juventude, para nos embrenharmos nos labirintos escuros e esquizofrênicos da idade, perdemos alguma coisa, algo se rompe. Com a escuridão da falta de perspectivas, vem a luz da teimosa vontade de continuar vivendo.
Quer saber? Eu até acho melhor assim. Eu sempre achei que ter muitas certezas é sinal de burrice ou de inexperiência, de ingenuidade. Desconfio de pessoas que sabem tudo, que sempre têm opinião formada sobre tudo. Prefiro as que duvidam, as que têm muitas perguntas sem resposta, assim como eu.
Prefiro minhas noites de insônia, revirando o passado para ver se encontro alguma razão que justifique o presente, e que me aponte o futuro. E quanto mais penso, mais existo, quanto mais questiono, menos sei, quanto menos durmo, menos sono tenho, quanto mais amo, mais preciso de amor, quanto mais olho para a frente, mais preciso ter certeza do que ficou para trás, quanto mais esqueço minhas memórias, mais vontade tenho de viver, ainda que seja só para continuar a lembrar-me de como eu era, do que pensava, de quem pensava comigo, de quem pensava como eu e de quem me contradizia.
Por onde andam os velhos amigos? Seriam eles reais? Se eram reais porque não aparecem? Porque se foram? Por onde andam as paixões que eram infinitas? E os amores verdadeiros? Onde se esconderam? O que foi feito dos personagens que povoavam minhas histórias? Que papéis eles representam agora e em que palcos? Escrevem o próprio enredo ou se limitam a interpretar textos alheios? Onde andam minhas esperanças? Onde estão minhas poucas certezas? Será que o labirinto onde frequentemente me perco em busca de uma nesga de passado, não levará a nenhum outro lugar que não á revelação difusa e embaçada de estranhas imagens, reles imitação do mesmo passado, caricaturas de algo que foi sem ter sido? Quando será que vou parar? Onde será que vou parar? Será que vou parar? Vou parar? Será? Onde? Onde será que vou?
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